segunda-feira, 14 de setembro de 2009

São Bernardo Opaca

Nesta manhã - já não muito boa para mim - cheguei a redação e recebi uma triste notícia: Pierino Massenzi faleceu esta noite (13/09), vítima de um câncer. Quase um anônimo, este senhor vivia isolado num bairro calmo e arborizado em São Bernardo. Tive oportunidade de conhece-lo no fim do ano passado, um encontro agradável que rendeu minha única matéria na página de entrevista do jornal ABCD Maior, que pode ser lida aqui.

O artista plástico italiano Pierino foi cenógrafo e diretor de arte do Vera Cruz, fez mais de 40 filmes por esta marca, que viajaram o mundo. Com mais de 80 anos, continuava cheio de vida, alegria nos olhos e língua afiada para falar mal do que não concordava. E eu concordei com ele, com sua sinceridade, sua índole. Sofro por ter esperado uma próxima oportunidade de conviver mais uma tarde com aquela alma cheia de ensinamentos e doçura. Me entristece ter perdido outra chance de aprender mais.

Perdemos Seu Pierino. Um artista de tanta importância para o cinema brasileiro, tanta contribuição para a cultura nacional e tão preocupado com as desigualdades deste país, que ele adotou e amou. E hoje vejo que não foi Pierino quem ganhou o Brasil, mas foi o Brasil quem ganhou a brilhante passagem de Pierino. E hoje não haveria de sair sol em São Bernardo e nem no meu dia.

Pierino no ateliê de sua casa, em agosto de 2008. Foto: Luciano Vicioni

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Você tem fome de que?

É tão difícil ler sobre política cultural nas paginas do Caderno 2 do Estadão, que ao chegar no trabalho pude abrir um largo sorriso. A notícia dizia que o presidente Lula estará em São Paulo hoje (16/07) para assinar uma lei que cria um “Vale Cultura”. Ele servirá como o vale refeição e o vale transporte, será recebido pelos trabalhadores de baixa renda pelas empresas, que terão em troca renúncia fiscal de até 1% do Imposto de Renda. O vale dará R$50 para serem gastos em cinemas, shows, museus, exposições...Enfim: um grande passo para a democratização da cultura, que é tão inacessível no país.

A matéria completa pode ser lida aqui!!

E como bem colocou o jornalista Jotabê Medeiros: “a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte”.

terça-feira, 30 de junho de 2009

de tão linda, deveria ter nascido passarinho

Antes tarde do que nunca, parte 2: assisti "Piaf". Ô vidinha sofrida a dessa mulher, essa tal de Édith Giovanna Gassion. Me fez lembrar Frida Kahlo, que também passou por poucas e boas. As duas tem um belo filme e deixaram belas artes para que a linda passagem delas por esse mundo não seja nunca esquecida. Piaf é imortal, mesmo. Até na caixinha de música, daquelas que tem uma bailarina dançando.

Enfim...coincidentemente li uma poesia de Cecília Meireles (outro exemplo de imortalidade), que me lembrou a cantora. Então para mudar um pouco os padrões de crítica do blog, vou deixá-los com uma poesia.

Humildade

Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Jean Charles

Estréia hoje nos cinemas "Jean Charles", que conta a história do brasileiro morto pela polícia londrina em 2005, após ser confundido com um terrorista no metrô. A equipe deste humilde blog teve o prazer de acompanhar a pré-estréia do filme ontem, com uma palestra dos produtores conduzida por Fernando Meirelles.

O longa foi muito mais leve e divertido do que eu imaginava e a direção e roteiro ficaram com o mérito de não transformar a história em um dramalhão sem fim. Selton Mello conseguiu humanizar a história do jovem brasileiro. A presença de Luiz Miranda como Alex, primo de Jean, foi a boa surpresa, com uma interpretação que transitou do cômico ao dramático sem artificialismos.

A história mostra um pouco de como o imigrante se virava pra viver em Londres junto com os primos e apresenta Jean não como um mártir, mas como alguém com o jogo de cintura que qualquer um teria pra se virar ilegalmente em um país europeu

As personagens de Patricia e Maurício, prima e chefe de Jean Charles, são interpretadas pelas pessoas reais. Segundo o diretor do filme, Henrique Goldman, Maurício foi uma das principais fontes para compor o roteiro do filme, já que ele contou para a equipe um lado pouco conhecido e explorado pela mídia na desgastada história do incidente. "Nos depoimentos que colhemos, as primas de Jean endeusavam ele. Por isso, tivemos que encontrar a parte humana pra contar no filme", explica o roteirista, Marcelo Starobinas.

Goldman conta que a intenção nunca foi produzir uma película completamente dramática, apesar do final trágico já tão conhecido do público. "Eu queria um filme que celebrasse a imigração. A forma como essas pessoas lutam, trabalham e são sonhadoras. Não queria algo completamente triste", esclarece. Quanto à função política da história, isso ficou por conta de pequenos detalhes. Segundo o roteirista, "Temos cenas que mostram um pouco do preconceito contra o imigrante após os atentados terroristas em Londres, mas acreditamos que isso deve estar muito mais no entendimento de quem assiste do que de forma explícita".

A co-produção Brasil/Inglaterra ainda não tem sua versão em inglês finalizada. A equipe espera expandir o filme para além dos dois países que compõe e história e exibi-lo em outros regiões da Europa e nos Estados Unidos.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Fragmentos


Para Vik Muniz, parte de uma obra é feita pelo artista e a outra fica por conta do espectador, que vai misturar suas experiências, pensamentos e memória com o que está exposto.

A mostra dele no MASP colocou a conversa fiada em prática e me fez sair dali cheia de idéias e coisas para refletir sobre. A exposição é democrática, traz temas e materiais capazes de agradar a todos os gostos. Tem macarrão, chocolate, tempo, fotografia, diamante, vivências, mapas, olhares, retratos, nuvens e, principalmente, pessoas.

O artista começou trabalhando com esculturas, das quais sempre tirava fotos para documentação. Eis que descobriu muito mais encanto em produzir a fotografia do que em criar apenas os objetos. Sem a preocupação de ter uma peça eterna, foi fácil perceber que qualquer material rende uma boa imagem.

Entre as obras estão a representação da Vênus de Botticelli em sucata, as divas de Hollywood retratadas a partir de diamantes, a doçura de crianças captada em construções de açúcar, trabalhadores de um aterro sanitário reconstruídos com lixo e a Medusa, de Caravaggio, recriada em um prato de spaghetti. O artista também olha para o público de um auto-retrato que mostra suas esferas e nuances a partir de restos de papel de furadores (acima).

Muniz junta o passado e o presente, embaralhando fotografias famosas e obras primas da história da arte com qualquer coisa que faça parte do nosso dia-a-dia. Mescla referências de vários tempos e lugares, daqui do lado ou de lá de longe. Exibe rostos, gente, coisas e se exibe. Planta dúvidas, e não respostas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Rosa, azul e dourado

Sei que estou um pouco atrasada, já que Maria Antonieta, filme de Sofia Coppola sobre a rainha da França mais odiada de todos os tempos, foi lançado em 2006. E eu fico me perguntando: “porque diabos eu demorei tanto para assisti-lo?”.

As cores e os contrastes, a beleza da direção de arte e dos figurinos me arrancou suspiros (literalmente!!). A realeza dourada misturada com a trilha musical atual de indie-rock-eletrônico resultaram em algo que eu nunca imaginei ser possível: um filme de época moderno.

É pop. E aí tenho que admitir que gosto disso. Me fez lembrar um dos meus fotógrafos favoritos, David Lachapelle (veja aqui o site do cara). Além disso, na minha opinião, Kirsten Dunst já fez por merecer sua existência artística.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Culto ao belo


O libanês "Caramelo" é um filme cheio de beleza, leveza e cor. A história é simples e romântica, mas não precisa muito. Afinal, só a tentativa de entender cabeça de mulher já é suficiente para gravar um filme, sempre dá pano para manga.

As belas mulheres libanesas até parecem as mulheres de Almodóvar. As cores quentes e graciosas também. Além disso, sempre vale conhecer um pouco mais das tradições de outro país. Vá, mas sem esperar uma grande trama com um final excepcional. Apenas curta a beleza que lhe é oferecida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Alegria, alegria


O bordão usado pelo Wilson Simonal mostra bem sua personalidade: despojada, despreocupada e alegre. Confesso que sabia pouco sobre o cantor, mas me apaixonei por sua voz. O documentário “Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei” é, sem sombra de dúvidas, dos melhores do gênero que eu já assisti.

Penso que a maior dificuldade em fazer documentário é estrutura-lo. Este é muito bem montado, tem um ritmo “swingante”, mesmo quando exibe antigas gravações por minutos e sem cortes. Dá vontade de bater palminhas na cadeira do cinema.

Achei interessante como a carreira foi abordada sem exagerar pro sentimentalismo ou vida pessoal. Os filhos, os cantores Max de Castro e Wilson Simoninha, dão seus depoimentos, mas pouco falam sobre a relação com o pai. Os entrevistados, pessoas próximas ao músico, transmitem além de emoção, opiniões diferentes, o que é demais prum documentário, que sempre tende para um lado.

Além de tudo isso, o clímax do filme fica por conta do boicote a Simonal. E assim, é sempre bom discutir – e para isso os entrevistados fizeram seu papel grandiosamente – a imprensa brasileira e o senso comum. É um filme para rir, bater o pezinho no chão e para refletir também. Cinco estrelas!

Pra não esquecer mais


Como se já não fosse bom o suficiente poder ir ao cinema pagando apenas R$ 2,50, sem ingresso de estudante, assisti ontem no Espaço Unibanco ‘Simonal – Ninguém sabe o duro que dei’. O filme dá vontade de rir, chorar, ouvir música e ler 'O Pasquim'. Traz um saudosismo estranho, de coisas que eu não vivi e, bem sinceramente, nem sabia muito bem que tinha acontecido até então.


A história dá um bom pano pra manga. Simonal, filho de emprega doméstica, negro e pobre, torna-se o mais conhecido show man do Brasil. Enquanto a música nacional se preocupava em falar alto contra a ditadura, o cantor só queria hipnotizar a multidão com swing e pilantragem.


Por causa de uma encrenca mal explicada com o próprio contador, o artista debochado acaba ganhando fama de dedo-duro da ditadura e excluído pela imprensa e classe artística. E assim continua até sua morte, em 2000 – sem espaço não só como figura pública, mas vendo também sua música ser condenada a ficar de fora da tão aclamada MPB produzida na época.


Muito mais que uma história comovente, o mérito do filme está em conseguir, em 86 minutos, expor os mais diversos aspectos que compunham o Simonal: o menino pobre, o jovem, o cantor carismático, o orgulho, o descompromisso, o pai preocupado, a frustração, o esforço, a esperança e a fraqueza. Uma mistura e tanto de música, história, imagem e bons depoimentos.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tão entediante quanto o próprio W.


Logo que o letreiro começou a subir a Gi já levantou da cadeira e demonstrou em voz alta a falta de contentamento com o filme. Mesmo assim, acho que vale avisar os coleguinhas do que os aguarda, né!

W. conta a história do 43º Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Eu acredito que o diretor Oliver Stone tenha tentado fugir da narrativa linear fazendo o filme girar em torno das decisões da Guerra no Iraque. Por tanto ele vai e volta no tempo durante todo o filme.

Porém eu não acho que o filme seja de todo mal. Por mais que a maioria saiba da idiotice do ex-presidente, gostei de conhecer mais sobre a vida dele, um garoto texano filhinho de papai. Infelizmente, o final do filme parece interminável quando se trata só da guerra, mas nada que um forte respiro não alivie na saída.

Ah! Nota dez pro protagonista, Josh Brolin!!